Notas de uma mente inquieta

O senhor das moscas

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Ao longo deste ano eu fiz review de várias adaptações de #quadrinhos. Trazendo um texto separado para cada obra, mas desta vez preciso fazer diferente.
Acontece que eu comecei a leitura do quadrinho e, pela primeira vez, me vi obrigado a parar a leitura e procurar a obra original. Só após a conclusão do livro que voltei para terminar a leitura do quadrinho. Eu até já havia refletido um pouco sobre isto no quadrinho do Grande Sertão: Veradas.

Assim, não acho a leitura do livro obrigatória para a apreciação do quadrinho. A ideia é que sejam obras autossuficientes e não uma complementar a outra, mas a história acabou me trazendo a sensação que eu estaria perdendo algo se começasse pelo HQ.
Se você não conhece a trama principal deste clássico, um breve resumo: um grupo de crianças, após um acidente aéreo, fica perdida e isolada em uma ilha. Então, precisam conviver enquanto sociedade sem qualquer supervisão de adultos.

Toda a história é contada pela ótica destas crianças, tanto pela ludicidade da interação com a natureza, como pelos terrores desconhecidos de uma ilha deserta. E foi nesta segunda parte que eu resolvi pausar a leitura da arte-sequencial. Tudo estava demasiadamente visual, o que claramente deveria ser algo subjetivo e fruto da imaginação fértil de crianças estava ali desenhado e exposto (de uma maneira magistral, há de se dizer). Não me entenda mal, temos aqui uma excelente adaptação, a autora conseguiu ambientar muito bem cada elemento da obra. As ilustrações da ilha funcionam como um personagem a parte, com seu temperamento e mudanças muito bem narradas a partir de cores e texturas deslumbrantes.

A história discorre basicamente sobre o embate entre o ser humano social e o ser humano bicho. Como seguir regras quando se está com fome? Como convencer que gastar horas gerando fumaça para POSSIVELMENTE serem vistos é mais importante do que caçar para NECESSARIAMENTE se alimentar. O amanhã é uma construção da civilização, seres não-racionais estão exclusivamente voltados para o agora. Quando é posto crianças para viverem estes conflitos não é evidenciado apenas as suas fragilidades mas também a inocência. Os adultos são condicionados ao longo de toda a vida para fazer parte de algo maior e procurar se distanciar deste lado puramente animalesco que existe em nós.

Ao terminar as duas obras, também ficou evidente como a obra é absorvida diferente nos dois formatos. O livro traz a sensação que a história ali contada levou dias ou até meses, já o quadrinho parece que tudo aconteceu em algumas dezenas de horas. Por outro lado, é muito fácil esquecer que as frases ali ditas estão saindo da boca de crianças apenas pelo texto, já com as imagens fica extremamente evidente, inclusive pelo belíssimo trabalho da artista nas expressões faciais.

De verdade, eu recomendaria a apreciação das duas obras, na mesma sequência que li. Mas é incrível termos disponível em dois formatos distintos este clássico podendo abranger ainda mais os leitores impactados com algo tão potente.

P.S.: Confesso que não sei se tem alguma referência direta mas não tive como deixar de criar alguns paralelos com Lost

#leituras #quadrinhos #review