Notas de uma mente inquieta

PLUR1BUS

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Uma das melhores surpresas do ano foi esta série. Acho que estamos tão imersos nos mesmos assuntos, nos mesmos formatos que cada obra que se permite trazer algo diferente já se destaca imediatamente. Essa temática da mente coletiva é muito curiosa e abre um leque de possibilidades inimagináveis. Pensando assim por alto, lembro apenas de Rick and Morty abordar de maneira tão parecida.

A mecânica destes novos seres foi muito bem apresentada, o que deixou tudo ainda mais interessante. Os três primeiros episódios dedicam-se a irmos entendendo, a partir dos olhos da Carol, como os seres estão conectados, quais seus princípios, quais as vulnerabilidades e qual o objetivo deles neste processo. O Vince Gilligan tem uma cadência muito boa para as ações. A alternância entre a monotonia da rotina com momentos de tensão no limite apresentam um ritmo excelente para toda a primeira temporada.
Sempre com aqueles pequenos detalhes que enriquecem a trama sem precisar proferir nenhuma palavra. Um exemplo que eu adorei foi a de manobrar um avião. Até mesmo a linguagem que hoje já é não-verbal pode ser suprimida em um mundo onde todos se conversam pelas mentes.

O episódio que apresenta as outras pessoas imunes é excelente. É extremamente plausível, por mais maluco que seja, uma pessoa querer se aproveitar daquela situação. Diferente de Carol, a maioria dos sobreviventes mantiveram seus familiares, o que automaticamente gera uma empatia com os infectados, pois eles podem continuar iguais em suas rotinas. A mãe não enxerga um alienígena, ela continua enxergando o filho dela. Apenas este subtexto já pode levantar discussões extremamente relevantes. Carol inicia a série combativa mas aos poucos vai cedendo em cada interação apenas pela necessidade de contato humano. Mesmo nos momentos onde era tentado evitar o contato com os infectados, a necessidade do coletivo se evidenciava: quem providencia a comida? quem traz o remédio? quem faz a manutenção na rede elétrica?
Vivemos em um mundo completamente conectado e dependente do coletivo.

Esta obra também me fez refletir bastante sobre os benefícios da individualidade e os malefícios do coletivo, e vice-versa. O conceito de propriedade só existe atrelado ao conceito do EU? Seria por conta disto que os pronomes possessivos estão diretamente relacionados aos pronomes pessoais?
Até onde vai sua liberdade individual? O coletivo pode forçar o indivíduo a algo por considerar o que é melhor para a sociedade?

A primeira temporada se encerrou redondinha. Conexões foram feitas e a motivação para a segunda temporada ficou muito clara. Conhecendo as obras anteriores do Gilligan, podemos esperar uma segunda temporada bastante agitada e com mais momentos de explodir a cabeça.

🚨 Área com spoilers 🚨

O penúltimo episódio, onde o paraguaio atravessa a floresta para encontrar a Carol enquanto ela se diverte explorando a cidade é excelente. Ambos percorrem caminhos diferentes mas no final chegam no mesmo ponto: nós somos seres naturalmente sociais e precisamos do coletivo para sobreviver.

Eu dei uma boa risada quando a Carol se surpreende ao perceber que ninguém se importou com o canibalismo. Lembrou-me de um episódio do Quadrinhos na Sarjeta discute sobre isto. Neste caso, tem uma camada a mais que é a índole de quem faz a "coisa errada". Eles já provaram que não são seres violentos, que não machucam nenhum ser vivo, sequer uma fruta em uma planta, logo, a intenção conta mais do que o ato.

O personagem paraguaio, Manny, deu um tempero excelente a trama. Pelo que entendi, a sua motivação baseia-se no seu cerne religioso, o que o colocou diretamente em confronto com os alienígenas. Mas e perante os outros sobreviventes? Será que ele irá combater os "pecados" dos que ficaram?

Acho que a segunda temporada caminhará para um conflito entre os que ficam. Do mesmo jeito que julguei da natureza humana a necessidade de contato com outros, também acho que faz parte desta mesma natureza o conflito para proteger os seus. Se eu fosse chutar, acho que a segunda temporada caminhará para o combate direto entre eles.

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