Quarto de despejo

A primeira vez que ouvi a poesia de Carolina Maria de Jesus foi em uma música do Inquérito, devo ter escutado este trecho algumas milhares de vezes:
Quando descobri que sou poetisa, fiquei tão triste
Há várias coisas belas no mundo que não é possível descrever
Quero ser livre igual ao sol
Então, quando um amigo do trabalho recentemente me recomendou este livro não me soou distante, desconhecido. Nunca tinha lido nada dela, não conhecia sua obra, sua história, sequer uma foto exibida em um jornal. Nada. Não é estranho? Conheço autores de todos os cantos do mundo, vi entrevistas deles passando no Fantástico, acompanho memes em redes sociais... Convido-os a refletir junto comigo, por que esta autora brasileira não ocupa este espaço no nosso imaginário cultural?
Quarto de despejo é um diário autobiográfico de Carolina enquanto moradora de uma favela em São Paulo. Violência, miséria, opressão são personagens ali presentes em sua documentação dos flagelos humanos. Existe um contraste constante entre a beleza enxergada pela autora e a crueza exposta em cada momento. Um conflito sublime entre a realidade e a poesia. Do lado de cá da ponte, consigo imaginar em como certos trechos possam soar sombrios, assustadores ou caricatos em quem não conhece a realidade da rotina em uma comunidade periférica. Enquanto ex-morador de uma periferia me vi a todo momento revivendo memórias da minha infância na Vila Peri, em Fortaleza, através dos relatos de Carolina.
Parece que eu vim ao mundo predestinada a catar. Só não cato a felicidade.
O diário se passa em alguns entre 1950 e 60, pré-ditadura militar e todos os acontecimento da nossa política contemporânea mas não é difícil imaginar os pontos de interseção com a vida das pessoas de periferia nos dias de hoje. Houveram avanços, acho que o Brasil, enquanto nação, deu mais atenção a fome e ao acesso a melhores oportunidades mas Quarto de despejo ainda é uma obra que reflete problemas crônicos da nossa sociedade.
A vida é igual um livro, só depois de ter lido
É que sabemos o que encerra, e nós quando
Estamos no fim da vida é que sabemos
Como a nossa vida decorreu, a minha até aqui
Tem sido preta, preta é a minha pele
Preto é o lugar onde eu moro!
Esta obra deveria ser leitura obrigatória nos currículos escolares. Ou, no mínimo, ter mais atenção e repercussão ainda nos dias de hoje. De certa maneira foi até incômodo ler esta obra enquanto acompanhava "Coisa de rico" nos holofotes dos programas de televisão e podcasts. Com todo perdão do meu francês, foda-se a rotina dos ricos. A persistência da miséria que deveria ser pauta.
O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora.